
Santa Clara escreveu no final de sua vida um Testamento e deixa por escrito aquilo que é mais caro para ela, em herança para suas irmãs presentes e futuras. Clara inicia seu Testamento com um coração pleno de gratidão e ação de graças ao “Pai das Misericórdias” por todos os benefícios, tais benefícios recebidos “cotidianamente” no que é grande e no que é pequeno. E é essa experiência que ela deixa, em primeiro lugar, como herança espiritual. De fato, a nossa vida é repleta dos benefícios do Senhor. Segundo o dicionário a palavra benefício, entre outros, significa: bem que se faz gratuitamente. É assim o nosso Deus! Dá-nos continuamente o bem, o bom, de “graça” Ele mesmo se nos dá constantemente no seu Espírito, nos Sacramentos, especialmente na Santa Eucaristia, na sua Palavra, nos irmãos e em tudo que nos cerca, na beleza da criação, onde “reconhecemos nas coisas formosas o Formosíssimo”. Tantos são os benefícios do Senhor! Ele nos antecede em tudo com sua bondade. Vivemos sustentados por esse bem. Respiramos, ouvimos, andamos, bebemos, comemos, dormimos, sentimos, falamos, trabalhamos, rezamos por que Ele nos beneficia: nos faz e nos dá o bem gratuitamente, sempre, a cada momento, a cada dia. E mesmo quando algumas dessas nossas faculdades que Ele nos concedeu estão impedidas do seu natural funcionamento, Ele nos dá seus benefícios igualmente nestas circunstâncias, despertando em nós forças adormecidas que, ainda mais, proclamam a sua bondade e misericórdia. Clara, então, inicia o seu Testamento com um convite ao louvor, porque sua vida toda foi um louvor, porque em tudo sentia-se amada, cuidada, agraciada. “A boca fala do que o coração está cheio”. Assim, transbordando de gratidão, Clara, antes de tudo, recorda os benefícios de Deus, louva o Senhor e nos convida a essa experiência, a esse “dever”. Sim, porque quando recebemos muito de alguém, nos sentimos naturalmente “devedores” desse alguém, no sentido mais puro e belo da palavra. Em um mundo em que são tantas as reclamações, as exigências, as insatisfações, as cobranças, Clara, no seu Testamento, vem nos recordar que somos amados, beneficiados cotidianamente por um Pai misericordioso, que precisamos aprender a louvar, agradecer. De fato, Deus não precisa de nosso louvor, nós é que somos felizes e libertos nessa experiência. Mas para sermos pessoas agradecidas precisamos prestar atenção no quanto recebemos a cada momento e para provocar essa atenção é necessário aprender a contemplar. Somente no encontro amoroso com o Amado, que tudo nos concede é que somos despertados para todo o bem que dele recebemos, mesmo nas coisas mais corriqueiras da nossa vida. Tornando-nos pessoas de louvor, de gratidão, certamente seremos pessoas mais serenas, mais livres, mais amorosas, mais felizes e irradiaremos a paz e o bem por onde passarmos. Pois o louvor, o reconhecimento, a gratidão, mesmo por aquilo que aparentemente não é bom, liberta, salva, redime. E Clara completa esse convite com um reconhecimento maior: “Entre esses benefícios o maior, o mais sublime e que pede mais ação de graças é o dom da nossa vocação. Por isso diz o apóstolo: reconhece tua vocação.” Aqui pensamos especificamente na nossa vocação de Irmãs Pobres, considerando esse parágrafo do Testamento como que o sumo, a essência da nossa vida: reconhecer nossa vocação, perceber e experimentar nela o maior benefício e nos tornarmos assim, mulheres do louvor, pessoas cheias de gratidão não somente em palavras, mas sobretudo por uma vida que manifesta a bondade, a gratuidade, a benevolência e as misericórdias do Senhor. A sublimidade e a grandeza de nossa vocação é tanta que toda uma vida empenhada em aprofundá-la, assimilá-la torna-se curta e breve. Em que consiste, pois, a sublimidade da vocação da Irmã Pobre? Certamente não podemos encaixotá-la em nossas limitadas palavras humanas, mas apenas tocá-la de longe, já que toda uma existência não esgota sua grandeza. Antes de tudo, acredito que a sublimidade da vocação da irmã pobre é a de ser toda de Deus, em poder devotar toda a sua vida a Ele e viver dele mesmo, como uma vela que se consome no Altar, sem nenhuma utilidade aparente, somente para honrar a Deus, engrandecê-lo. Assim, o sentido da vida da irmã pobre é a primazia de Deus, é o deixar-se envolver e tomar por sua beleza, amor, plenitude.
Irmã Bernarda do Bom Pastor, OSC
Abadessa do Mosteiro Mãe da Providência.
Cascavel-PR