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A Experiência Franciscana na Liquidez da Vida Contemporânea

Por Frei Wagner Rafael Rodrigues, OFMConv

frati minorum conventuallium et pecator

Estudante do 3º ano de teologia do Seminário Maior Senhor do Bonfim


Na assim chamada pós-modernidade muitos valores foram transgredidos ou simplesmente rejeitados. O indivíduo colocado no centro do universo depois da virada antropológica matou Deus, como descreve Nietszche[1], e com isso lê o mundo somente a partir de si tornando-se parâmetro da realidade. De fato, o dito de Protágoras é muito atual: “O homem é a medida de todas as coisas[2]”. Além disso, a postura hedonista do homem contemporâneo intensifica seu individualismo desproporcionando as relações e a comunhão, justamente por enxergar o outro como objeto da sua vontade, do seu desejo e do seu prazer.

Outro fator de ruptura é a querela da liberdade, isto é, o ser humano pós-moderno não aceita que sua liberdade seja obstruída por normas e regras. Como se diz: “É proibido proibir”, contudo, nisso já se manifesta uma regra; ser livre não é uma decisão, mas uma imposição, a qual está concomitantemente ligada ao axioma sartreano: “O homem é condenado a ser livre[3]”.

Por outro lado, nessa espinhosa questão da liberdade há outra postura que idolatra as normas e regras, como um farisaísmo moderno. Não conseguem pensar e agir sem a estrutura da lei. Assim, o agir é, ou seja, o indivíduo é uma marionete ou um fantoche que vive a lei pela lei. Porém, tal reflexão não é do tipo anarquista que visa extinguir toda forma de lei e regras, mas enxerga a lei como instrumento, a qual está para resguardar a vida. No entanto, em certas situações da vida a lei não consegue responder, daí a criatividade e ousadia.

Nesse sentido, cabe a pergunta: qual é então a melhor forma de viver? Qual o segredo para encontrar a felicidade? Nessas questões comuns, as quais o ser humano formulou durante toda a história, já se encontra um grande problema: a tentação de buscar antídotos ou\e fórmulas para resolver os problemas. Em outras palavras, a tendência é terceirizar a vida para que outros a vivam, ou encontrar algo que facilite a experiência do viver, que por sua vez é duro e penoso.

O homem pós-moderno tem preguiça de querer viver a dura realidade. São muitos os livros de auto-ajuda que prometem soluções mágicas para tornar melhor a experiência do viver, com receitas e dicas que ajudam a ter uma vida melhor e saudável.

            Contudo, viver é sofrer, como diz o literato alemão Goethe[4] em uma de suas obras. Estar na vida é encara-la com serenidade e com firmeza, disposto a pagar o preço das escolhas feitas. No filme, ou melhor, na obra que se tornou filme de Tolkien[5]: “Hobbit, uma Jornada Inesperada”, na cena em que Gadalf questionado pela senhora Galadriel em Valfenda, a respeito da tarefa perigosa dos anões em reconquistar Erebor, ele afirma algo que nos falta muito hoje: “são ações de pessoas comuns, simples, que fazem suas tarefas diárias com empenho, que afastam de si os males e mostram o rosto da felicidade ao mundo”.

O que significa isso? Ora, hoje o imediatismo tomou conta da vida moderna, não basta mais esperar, tudo tem que ser para ontem. Hoje num restaurante ou num café se conversa com o mundo inteiro, através do whats, mas não com a pessoa que está a nossa frente. Não se dá valor pelo processo, pelo ciclo, pelo fazer, mas tudo já é pronto ou mastigado. Então, como será? O que esse texto confuso propõe? Bom, nossa sociedade atual é comparada com um edifício, grande e alto, muito maior que as torres gêmeas da Malásia. Todavia, seu fundamento também é profundo e bem preparado com muito aço e concreto, ou\e pedras grandes e fortes. Ora, essa analogia diz respeito ao alicerce da civilização ocidental, que está no chão da antiguidade e sustentado pela argamassa medieval. Apresenta-se aqui alguém que em seu tempo soube encontrar o segredo da Ars Vivendi, a “Arte de Viver”.

Na experiência de São Francisco de Assis dois momentos, dentre os muitos marcantes de sua vida, ajudam ilustrar tal pensamento. Primeiro o encontro com os leprosos e depois a fala do Crucificado na igreja de São Damião. De fato, para Francisco era insuportável ver e estar perto de leprosos, até que num dia ele movido pela graça do Altíssimo vai ao encontro deles e passa a conviver com eles. No seu Testamento, Francisco diz: “O próprio Senhor me encaminhou até os leprosos e eu fiz misericórdia com eles, e tudo que parecia amargo tornou-se doçura para a alma e o corpo”.

Num segundo momento, ele estando fora dos muros da cidade de Assis, vê uma igrejinha velha e abandonada, ao passo que a adentra e se põe a rezar. Assim ouve do Crucificado: “Francisco, não vês que minha casa estás em ruínas. Vai, pois, e restaura minha Igreja”. Imediatamente, ele se coloca a trabalhar pela restauração daquela igrejinha. Desse modo, Francisco no auge de seu processo de conversão aprendeu a ser menor, isto é, ter a capacidade de sair de si mesmo, e ir ao encontro do outro, esse na figura do leproso, marcado pela podridão humana e por isso marginalizado pela sua condição. Assim, na missão recebida do Crucificado, Francisco restaura a si mesmo, ou seja, busca viver a forma do Santo Evangelho. E na vivência assídua restaura a Igreja do Senhor com a vida e o exemplo.

            Por outro lado, a partir donde o jovem Francisco encontrou as forças para vencer a si mesmo indo ao encontro dos leprosos? Por ele mesmo, como um herói? A princípio ele seguiu essa trilha, uma vez que buscava ser cavaleiro para tornar-se grande e poderoso. Para tanto, ele foi educado na arte da cavalaria para poder alcançar tal objetivo. Ora, ele era cortês, elegante, prudente, ajudava os pobres, esperto, companheiro e tinha uma grande liderança. Porém, ele depois de um ano prisioneiro e gravemente ferido começa a repensar sua vida. Até que então, depois de um sonho de grandeza e glória coloca-se novamente a posto para guerrear nas Apúlias. No caminho ele semi-dormente, como sugere a LTC[6] escuta uma voz que o questiona a respeito de sua empreitada: “Francisco, Francisco, quem pode lhe fazer melhor: o senhor ou o servo? O senhor, ele diz. Então, porque deixas o príncipe pelo vassalo? Senhor o que queres que eu faça?” Volta para Assis, e lhe será dito o que deverá ser feito?[7]

            Nesse diálogo de Francisco com o Senhor, uma questão é fundamental: a coragem de questionar a si mesmo, abandonar um modo de vida e buscar outro modo novo, o qual ainda não é dito, precisa ser descoberto e feito pelo próprio Francisco. Olhar para um santo como Francisco é ter em primeiro lugar essa atitude de querer se abrir par o Senhor e não ter medo de trilhar seu caminho.

Ora, para Francisco se tornar o que ele foi, precisou-se de muito empenho, em renunciar muitas coisas para estar na vinha do Senhor, isto é, fazer a conversão diariamente, durante toda a vida. Aprender com os erros e fracassos. Utilizar de toda força para fazer o bem. Em outras palavras, Francisco só se tornou o que é pelo simples fato de cada dia buscar estar junto a Deus com o coração aberto para fazer a Sua Vontade. Contudo, tal adesão é livre, gratuita e ao mesmo tempo encarnada na vida, na Igreja (mesmo com os pecados cometidos por ela). Não basta saber a doutrina e a lei é preciso querer vivê-las com a vida.

Sendo assim, nessas breves e desengonçadas linhas procurou-se traçar provocações para uma mudança de atitude frente a mórbida mediocridade vivida por querer ter uma vida sossegada regada pelo ter, prazer e poder. A experiência de Francisco de Assis lança luzes no fim do túnel da modernidade, pois de fato, como Nietzsche afirma na “Gaia Ciência”, além de o homem moderno ter matado a Deus, ele também “sai ao meio-dia com uma lanterna querendo iluminar o sol”. Noutras palavras, rejeitou-se a religião cristã, justamente alegando que ela tornava a vida um conto de fadas, e com o progresso da razão alcançar-se-ia o estágio de um ser humano melhor e de um mundo, que regido pela lei da ciência, seria justo e igual para todos. O que se viu? Duas guerras mundiais, regimes totalitários que juntos dizimaram milhões de vidas e uma sociedade que se preocupa mais com a bolsa de valores, do que com seus indivíduos. Onde está a justiça provinda desse progresso racional? É claro que nossas vidas se tornaram mais longa e confortável com o avanço científico, inclusive esse texto é escrito numa máquina, contudo, a senhora ciência traiu a si mesma, e causou um enorme vazio sem colocar nada no lugar.

Em contrapartida, não adianta se dizer crente ou simplesmente cumprir preceitos religiosos, mas como Francisco de Assis é necessário se dispor ao seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos revelou o rosto do Pai e o Amor do Espírito Santo. A fé que Deus nos deu através da sua Igreja, precisa ser ratificada em nossa vida, e ao mesmo tempo para perseverarmos no discipulado é preciso entendermos o que é a nossa fé, na alegria de sermos discípulos. Porém, nesse seguimento “a porta é estreita e o caminho é cheio de pedras e espinhos” (Jo 10, 15), no qual há também inúmeras e belas flores.

Que Maria, a Mãe Imaculada sempre Virgem interceda por nós ao Seu Filho Jesus, de modo a vivermos o Amor de Deus Pai entre nós na comunhão do Espírito Santo, na via da minoridade e fraternidade assim como o pobrezinho de Assis.




 



[1]                      Filósofo alemão (1844-1900). A polêmica sentença de Nietzsche na qual: “Deus está morto, e o seu sangue escorre em nossas mãos”, está no fragmento 125 da obra: A Gaia Ciência”. A proposta da crítica de Nietzsche não é dirigida a religião cristã, propriamente dita, mas ele refuta a ideia de um Deus que é resultado de intuições metafísicas oriundas da filosofia platônica, que foi assumida pelo cristianismo quando precisa fundamentar a fé cristã, sobretudo na questão trinitária. Ora tal fundamentação cristã criou uma cisão entre aquilo que Deus é, com aquilo que os homens dizem que Deus pode ser. Em outras palavras, abandonou-se o Deus de Jesus Cristo revelado nas Sagradas Escrituras para assumir um Deus provinda da reflexão metafísica, a qual diz somente os atributos divinos, e não o que de fato Deus é, o grande Tomás de Aquino sintetizou bem a teologia negativa de Díoniso Pseudo Aeropagita: “De Deus eu sei mais o que Ele não é do que de fato Ele é, pois o nosso conhecimento é provisório a respeito de Deus” (Suma Theológica. I.q3)

[2]                      Protágoras de Abdera (480.a.C-410.a.C) filósofo sofista grego.

[3]                      Jean Paul Sartre (1905-1980). O axioma sartreano ressalta que a liberdade é incondicional e é isso que Sartre quer dizer quando afirma que estamos condenados a sermos livres: "Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer"

 

[4]                      Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832). A obra citada é: “Os sofrimentos do jovem Wherter”.

[5]                      J.R.R .Tolkien (1892-1973) literato inglês.

[6]                      Legenda dos Três Companheiros, está inserida nas Fontes Franciscanas.

[7]                      LTC 2, 5.

 
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