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A castidade franciscana

RNB 12: Do mau olhar e da frequentação de mulheres: A castidade franciscana

O presente texto tem como finalidade servir como base para a reflexão a ser realizada em um Workshop, atividade inserida no cronograma da VI Jornada Jovem Franciscana Conventual, voltada sobretudo para o público juvenil e proporcionada pela Província São Francisco do Brasil, dos Frades Menores Conventuais. Neste ano de 2021, o tema principal consiste em “Regra Não-Bulada: Uma regra a caminho”, por ocasião do Oitavo Centenário de aprovação desta mesma regra no Capítulo dos Frades, em 1221. A temática de tal Workshop, porém, está concentrada no décimo segundo capítulo do escrito, intitulado “Do mau olhar e da frequentação das mulheres”. Abaixo, apresenta-se o mencionado texto.

Todos os irmãos, onde quer que estiverem ou para onde forem, cuidem-se do mau olhar e da frequentação de mulheres. E nenhum com elas se aconselhe ou ande sozinho pelo caminho, ou coma à mesa do mesmo prato. Os sacerdotes falem honestamente com elas ao lhes darem a penitência ou algum conselho espiritual. Jamais uma mulher seja recebida à obediência por algum Irmão, mas, dado o conselho espiritual, faça ela a penitência onde quiser. E todos, muito nos guardemos e tenhamos limpos nossos membros, pois, diz o Senhor: Quem olhar para uma mulher cobiçando-a, já cometeu adultério em seu coração. E o Apóstolo: Ou ignorais que os vossos membros são templo do Espírito Santo? Por isso, quem violar o templo de Deus, Deus o destruirá.

Destaca-se o tom incisivo utilizado por São Francisco para se referir à relação com o feminino. O Santo de Assis parece ser duro, exagerado e até mesmo discriminatório quanto ao feminino. Porém, para Fr. Dorvalino Fassini, este trecho da RNB não quer simplesmente ser uma ação condenatória ou disciplinar de Francisco, mas aponta para a centralidade da “pureza de olhar” e para a exigência de um olhar bom, sadio e casto, provenientes de uma profunda experiência humana da relação.
O que deve iluminar o olhar humano é o Evangelho, a Boa Nova do Senhor Jesus Cristo, a Quem cada frade dedica sua vida. O mau olhar, por sua vez, está fundamentado nos próprios interesses, ou seja, na projeção do próprio sujeito. Desta forma, a maldade ou bondade não está propriamente naquilo que é observado (exterior), mas no interior do indivíduo, de onde, como afirma Jesus em Mc 7,15, surge o que realmente mancha o ser humano. Trata-se, pois, da malícia do coração cobiçoso e desonesto. Desta forma,

não é da presença da mulher na vida e nos trabalhos do frade e nem mesmo do fato deste olhar para ela que se originam a impureza e a violação da castidade. O que faz surgir a impureza é a malícia de um coração cobiçoso e desonesto. Por isso, um olhar mau pode surgir, também, estando o frade sozinho, encerrado em sua cela, numa total ausência de pessoas de outro sexo. Daí a insistência repetitiva do texto para que todos os frades se cuidem, se custodiem e mantenham limpos todos os seus membros.

A Regra não convida meramente ao rigorismo, mas à imitação do olhar puro e transparente de Jesus Cristo. O Senhor se mostra livre diante de toda criatura, não fazendo discriminação entre homem e mulher, mas dirigindo sua palavra a ambos. No mais, Ele chega a comparar Deus a uma mulher, ao mencionar que tal como a mulher procura a dracma que havia perdido, Deus busca o pecador (Lc 15,8-10). É preciso salientar, ainda, que Jesus também fez milagres em favor de mulheres, superando as leis quanto à impureza legal (Mc 5,25; 7,25; Lc 13,10s; 7,11). Nota-se que as relações de Jesus para com o feminino não partem da inclinação para o pecado, que a fé cristã chama de concupiscência, mas do acolhimento e do respeito, marcados pelo verdadeiro amor, livre de todo egoísmo.

A questão, então, não diz respeito ao gênero feminino em si, pois três figuras femininas acompanham a vida de São Francisco, a saber: mãe, esposa e filha. Celano descreve a mãe de Francisco de Assis como mulher amiga da honestidade e de virtude notável. Na Legenda dos Três companheiros, ela se mostra como a que observa o filho, intuindo o profundo de seu coração e afirmando aos que criticavam a postura pródiga dele que este tornar-se-ia santo de Deus. É ela quem liberta o filho das correntes que o pai lhe havia colocado. O cuidado da mãe é assumido por Francisco na Regra dos Eremitérios, segundo a qual dois frades deveriam cuidar de outros dois como mãe. Essa forma de cuidar também aparece em na Regra Não Bulada e Regra Bulada, demonstrando o amor que deve se fazer presente na fraternidade.
A figura feminina da esposa refere-se à Senhora Pobreza, desposada pelo jovem Francisco que, 

feito amante de sua forma, e querendo unir-se mais estreitamente à sua esposa, como se fossem dois em um só espírito, abandonou não só pai e mãe mas, se desprendeu de tudo. Abraçou-a, por isso, em castos amplexos e não quis deixar de ser seu esposo nem por uma hora sequer. Dizia a seus filhos que ela era o caminho da perfeição, o penhor e a garantia das riquezas eternas.

Nota-se que o uso que Francisco faz do termo “esposa” expressa o comportamento de respeito que ele tinha para com o casamento. Como outros místicos, o Pobrezinho de Assis lança mão de termos matrimoniais para falar destas suas núpcias com a Senhora Pobreza. Essa linguagem recorda a Sagrada Escritura (Bíblia) que também a utiliza com a finalidade de indicar a Aliança de Deus (o Esposo) com o seu povo (a Esposa), o que pode ser comprovado na literatura profética (cf. Ez 16).

A terceira figura feminina refere-se à filiação (“filha”) e é evidenciada sobretudo na relação de Francisco e Clara, a qual “foi vivida por Francisco com liberdade de espírito, nunca tendo deixado que sentimentos menos retos nela se infiltrassem, tais como a superioridade masculina, o paternalismo e a vontade de posse”. Esse carinho afetuoso de Francisco foi retribuído, na mesma medida por Clara, o que pode ser constatado em sua Regra e em seu Testamento.

A lida com o feminino, no que concerne à vida de São Francisco, dá-se também na amizade com Jacoba de Setessoli, uma viúva romana, a quem ele, sentindo-se moribundo, manifesta desejo de reencontrar. Além disso, o Santo de Assis não fazia seus sermões de modo restrito ao público masculino, uma vez que homens e mulheres acorriam a seu encontro. Leigos e leigas, casados ou não desejavam de igual modo viver o Evangelho que ele pregava. Ele também realizou milagres em favor de mulheres, não desprezando suas necessidades, como relata a Legenda Maior, de são Boaventura, e as Considerações sobre os Estigmas.

Destaca-se, entretanto, o mencionado texto da Regra Não Bulada, no qual Francisco apresenta um tom mais duro em relação às mulheres. Como se pôde observar, tal firmeza não pode estar associada a uma má consideração do gênero feminino, por conta das figuras que sempre estiveram presente em suas vidas, dos sermões pregados a todos e dos milagres realizados em favor das mulheres de seu tempo.

A proibição da frequentação das mulheres, para Mandelli, “nasce da convicção da necessidade de equilíbrio humano e espiritual e da consciência dos limites da fragilidade humana”. Sua orientação aponta para o cuidado de integrar os sentidos em um propósito de vida, que, no caso de Francisco e de seus frades, é a vida evangélica e o seguimento radical da pessoa de Jesus.

O ser humano é movido por projetos, ou seja, ele procura expandir-se, sair de si e ser na direção de um sentido a realizar. Afinal, ele 

experimenta a capacidade de autodirigir-se, apesar de seus determinismos e limitações parciais, porque tem consciência de que, acima de tudo, poder orientar a sua vida, dando-lhe estilo peculiar e característico. Em circunstâncias normais, ele não é dirigido por nenhum impulso que o obrigue a comportar-se desse ou daquele  modo concreto, dissociado do destino que a sua vontade livre queira dar-lhe. 

Destaca-se que é inegável admitir que o humano traz consigo seus condicionamentos. Ninguém nasce sem pai ou mãe, ainda que por diversos fatores possa vir a não os conhecer pessoalmente, sem estar inserido em uma linguagem, cultura, costumes, regras, sociedade que não escolheu por si mesmo. Há, pois, condicionamentos biológicos (genética), psicológicos (impulsos) e sociológicos (cultura, língua, família). Este é o chão da realidade no qual se colocam os pés. Entretanto, não necessariamente o ser humano precisa deixar-se dominar por eles. É aqui que entram a liberdade e a responsabilidade, características próprias do humano. A questão principal é como se vai posicionar perante as realidades que são apresentadas.

O ser humano não está fadado, obrigado, por exemplo, a seguir seus instintos, embora os tenha, como um animal. Este, tem necessidade imediata e instintiva. Não é estranho ver um cachorro morder alguém que dele se aproxima, quando está acuado, com medo ou protegendo sua cria. Se um leão (ou leoa) está com fome, é natural que cace sua presa e ao encontrá-la, faça dela sua alimentação.

Agora, o ser humano pode trabalhar seus medos, traumas e inseguranças, de tal forma a não precisar agir segundo sua agressividade quando ameaçado. Pode, então, fazer uso de sua liberdade, cujo “papel primário consiste em proporcionar à vida orientação básica, em dar-lhe destino, em encontrar um projeto de futuro que determine seu comportamento concreto, de acordo com a meta que cada um tenha traçado para si mesmo”. O projeto que orienta a vida de um religioso franciscano e lhe oferece critério de discernimento para o modo de se estabelecer relações com as pessoas é o Evangelho.

Já se frisou que tais relacionamentos não podem estar impulsionados pelo “mau olhar”, fruto de um coração desonesto. Como, então, devem ser construídos e vividos? Fassini afirma a necessidade de “um olhar bom, sadio e casto”. É, pois, o dom e a virtude da castidade que dispõem o humano a sinceros e frutuosos relacionamentos. O termo “castidade”, entretanto, corre o risco de ser reduzido ao âmbito sexual. Então, casto seria aquele que não realiza este tipo de relação. Estaria correta esta concepção? Ou “castidade” significa algo ainda mais profundo? Para tentar responder estes questionamentos, lançar-se-á mão de uma reflexão apresentada em um encontro entre religiosos, ocorrido no Estado de São Paulo, em 2016.

Nos dias 21 a 23 de junho do referido ano, em Caçapava-SP (Casa Kolbe), Vale do Paraíba, ocorreu um Novinter acerca da temática “Seguir Jesus Cristo, em Castidade”, ministrado pelo franciscano conventual Fr. Antônio Corniatti. Para melhor abordagem deste assunto referente à sexualidade humana, este religioso utilizou uma estória da cultura oriental, a qual é descrita na sequência,

Era uma vez uma velha viúva rica, budista, leiga, muito piedosa, fervorosa na busca da iluminação. Desejava ter tido um filho monge, mas nenhum dos filhos seguiu o caminho da perfeita iluminação. Decidiu adotar um monge. Construiu um pequeno eremitério, num lugar silencioso e retirado, cercado de uma belíssima paisagem, longe dos burburinhos mundanos. Foi ao mosteiro mais próximo e ofereceu ao abade o eremitério, e lhe prometeu cuidar do sustento e do bem-estar do monge que quisesse doar-se full-time (tempo integral) à meditação, e assim aplicar todas as suas forças somente na aquisição da iluminação. E recebeu do abade um monge, de grande dedicação à contemplação, que meditava sem cessar, dia e noite, sem nenhum apego às coisas mundanas, sem nenhuma distração A velha viúva estava satisfeita. Mas depois de um ano, quis ver o progresso do seu monge de adoção. Chamou uma empregada, belíssima e ansiosa a encontrar um marido e lhe deu a seguinte tarefa: “minha filha, o monge que mora naquele eremitério, seria um bom partido para ti. Ele é bom e belo, cheio de saúde, é um homem sério e reto. Vai seduzi-lo, usa de todos os teus recursos femininos para que ele se apaixone por ti. Se o conseguires, ele que é meu monge adotado, é teu”. A moça que já há muito tempo sentia uma grande atração e admiração pelo jovem monge, usou de todos os recursos para atraí-lo a si. Depois de uma semana de tentativa, achegou-se à velha mulher, em prantos, e sem nada dizer mostrou um pequeno bilhete, escrito pelo monge. Ali estava uma haikai, uma pequena poesia, escrita em belíssimas letras chinesas, mais ou menos de seguinte teor: Sou uma grande rocha, firme, impávida e fria, a pedra de iluminação. O que quer esse raquítico cipozinho a se enroscar em mim, com seus fiapos de tentáculos, carentes e sem consistência?”. Ao ler essa poesia, a velha se encolerizou, e disse numa voz surda, baixinha mas cheia de determinação: “Alimentei por um ano um charlatão preguiçoso, travestido de um monge!”. Incendiou o eremitério e expulsou o monge a golpe de caçarola.

Percebe-se que o monge confunde o autodomínio dos instintos e pulsões com insensibilidade, ou seja, ausência de sentidos, a ponto de ser comparado a uma grande pedra fria. Deste modo, não poderia sentir nem as tentações próprias de qualquer caminho humano. A partir de seu modo de ser impassível, trata o outro como coisa (“cipozinho seco”), deixando de lado seu ser pessoa. A mulher que dele se aproxima é um ser humano em busca da felicidade e da realização. Então, seria necessário tratá-la a partir de sua condição humana, o que não ocorreu. Um caminho possível diante desta situação talvez fosse a atitude de agradecer o carinho e o amor oferecido, mostrando o clareza do comprometimento que o monge havia abraçado.

O monge não comete infidelidade na forma como usualmente se entende castidade. Todavia, é tomado como “charlatão preguiçoso, travestido de um monge”, conforme afirma a senhora que o havia adotado para si. Neste caso, onde estaria propriamente o problema? A questão volta-se, pois, para o modo de relacionar-se ou, utilizando as palavras da Regra Não Bulada e de fr. Dorvalino, do “olhar” para a realidade do outro.

Para entender esta situação, é preciso mostrar como a teologia franciscana compreende a realidade antropológica, ou seja, a realidade do ser humano. De acordo com José Luis Parada Navas, o humano traz consigo uma natural abertura a Deus, aos outros e ao mundo, possibilitando uma capacidade para criar comunicação interpessoal. Desta forma, salienta-se que a relação é essencial ao ser humano. Por esta razão, pode-se entender que é natural o estabelecimento de laços, de proximidade.

A Escritura expressa que o ser humano foi criado para o amor interpessoal, o qual realiza o mistério do autêntico amor humano. É diante da mulher que o varão aprende a falar e a se expressar (Gn 2,23), indicando que a possibilidade da linguagem se instaura quando a consciência do “eu” se encontra diante de um “tu”. É como se o outro interpelasse o indivíduo que está diante dele a uma resposta. A forma mais amadurecida de responder a esta interpelação é a castidade. Contudo, o que é propriamente castidade? Já se viu que ela não pode ser reduzida somente ao âmbito sexual. Neste caso, como compreendê-la?

Na tentativa de esclarecer este ponto, utilizar-se-ão algumas reflexões propostas no retiro Provincial dos Frades Menores Conventuais da Província São Francisco de Assis, ministrado pelo frade menor Fr. Fidêncio Vanboemmel, entre os dias 06 a 08 de julho do presente ano, seguida das contribuições de outros autores indicados no decorrer deste texto. Fr. Vanboemmel destacou que Francisco entende a castidade com mais radicalidade do que se pode pensar, a saber: como pureza de coração, atitude assumida diante de Deus e das coisas. É um amor ordenado que coloca cada coisa em seu lugar.

A castidade, na ótica franciscana, antes de ser um ato de sexualidade, é um gesto de amor a Deus, uma atitude que busca preservar a exclusividade que se deve dar a Ele. A RNB chama a atenção para determinado modo de realizar cada coisa: servir, amar, honrar e adorar o Senhor Deus com o coração limpo e a mente pura. Não se pode adorar a Deus corretamente se há empecilhos no coração, isto é, no interior humano. A castidade, então, manifesta a abertura do coração para acolher a Deus, de tal forma a buscar remover os obstáculos existentes para receber a chegada de Deus, o que só é possível mediante em uma busca constante Dele.

A castidade ou pureza de coração refere-se também à simplicidade e à transparência, atitudes que qualificam as relações fraternas. Porém, ela abrange a dimensão corpórea. É inegável que há desafios humanos para a vivência da castidade corporal. A fraternidade itinerante está em contínuo contato com as pessoas. Por esta razão, a não vivência da castidade pode comprometer o testemunho evangélico do serviço da salvação das almas (salus animarum) que os frades deveriam ser na pregação. A citação da RNB, no capítulo XII, indica a necessidade de viver em castidade corporal.

A castidade, pois, diz respeito à transparência nas relações. Ela contempla cada pessoa e criatura através do projeto de dinâmica libertadora do amor pessoal. Em outros termos, o ser humano casto, límpido e transparente é “aquele que, à semelhança do espelho, como Cristo e Francisco, deixa ser o ser de cada criatura que nele se reflete, permitindo-lhe que siga livremente o caminho de sua identidade”. Assim, ela permite a liberdade de si e do outro, evitando que os relacionamentos decaiam para atitudes de posse, opressão, domínio, opressão, superioridade e qualquer outra coisa que despreze a dignidade de cada homem e de cada mulher.

A mulher não pode ser entendida como causadora do mal, da queda e do pecado. Um dos documentos da Igreja sobre a colaboração do homem e da mulher na comunidade cristã constata que “entre os valores fundamentais relacionados com a vida concreta da mulher, existe o que se chama a sua ‘capacidade para o outro’”.
O gênero feminino traz consigo a intuição de que o melhor de sua vida está vinculado às ações cuja orientação volta-se para o despertar, o crescimento e a proteção do outro. Exemplo de tal realidade é a sua capacidade física de dar a vida. Destaca-se na figura da mulher o rápido alcance da maturidade, do sentido da gravidade da vida e das responsabilidade que esta implica. O documento ainda chama a atenção para o fato de que 

é ela, enfim, que, mesmo nas situações mais desesperadas – a história passada e presente são testemunho disso – possui uma capacidade única de resistir nas adversidades; de tornar a vida ainda possível, mesmo em situações extremas; de conservar um sentido tenaz do futuro e, por último, recordar com as lágrimas o preço de cada vida humana.

Com isso, porém, não se quer ressaltar que tais atributos sejam apenas da mulher. Os valores femininos são, antes de tudo, valores humano. Por isso, quaisquer ações que pretendam subjugar a mulher como inferior devem ser denunciadas e combatidas, com justiça e equidade, promovendo a defesa da igual dignidade e dos comuns valores pessoais, sem prescindir do reconhecimento da diferença e da reciprocidade. Ambos, homem e mulher são chamados ao equilíbrio das relações, tendo em vista o projeto original do Criador, baseado na vivência do amor.

O relacionamento sadio, casto e virtuoso só pode ser estabelecido se se tem em mente este projeto do Criador. Como criatura chamada à existência a partir do amor de Deus, o ser humano, seja homem ou mulher, tem como vocação originária o chamado ao amor. Este é o fundamento que deve mover a prática da castidade. Mas, o que fazer quando há a tentação de agir contra este chamado originário? Nas Fontes Franciscanas há um texto que muito chama a atenção sobre a temática que vem sendo abordada, como se pode notar a seguir,

estando uma vez reunidos Frei Egídio de Assis, Frei Simão de Assis, Frei Rufino a falar mutuamente de Deus e da salvação da alma, disse aos outros frei Egídio: O que fazeis com as tentações da carne? Responde Frei Simão: Eu considero a torpeza daquele pecado e, de tanto abominar, me livro. Frei Rufino, por sua vez, disse: Eu me deito por terra e, por muito tempo prostrado rezando, imploro a clemência de Deus e da Bem-aventurada Maria até que me sinta perfeitamente livre. Frei Junípero, porém, diz: Eu, quando ouço as tais sugestões diabólicas como que espreitando no burgo da carne, imediatamente fecho a porta do coração e ocupo toda a fortaleza do coração pela segura custódia das santas meditações e desejos. Quando então aquelas sugestões repercutem, como que batendo à porta do coração, de dentro respondo, sem abrir de modo algum, dizendo: “Fora, fora, porque o albergue está ocupado: e por isso, aqui não podeis ser recebidas”. Assim, nunca permito que entrem. E elas, de fato, vencidas, se partem de toda a região. Em verdade, Frei Egídio imediatamente responde: Estou contigo, Frei Junípero, porque com aquele pecado, o homem combate mais seguro e mais discreto, fugindo; porque, por dentro com o traidor apetite carnal e por fora com os sentidos do corpo, o exército do inimigo se faz sentir bem grande e bem forte. Com efeito, de outro modo, ali, forte é a batalha e rara a vitória”.

Destaca-se que Fr. Junípero não permite a entrada da tentação da carne no seu coração. Ele se mostra o entendimento de que contra este tipo de fragilidade é melhor não contar comente com as próprias forças. Contudo, não age a partir de mero moralismo exterior (uma lei vinda de fora), mas segundo um projeto de vida: a pertença à pessoa de Jesus. Aqui a chave para compreender o sentido da castidade, quer para o leigo, casado ou não, quer para o religioso ou presbítero. Todo ser humano é vocacionado ao seguimento de Cristo no amor. A castidade, neste sentido, como já se afirmou, é um amor ordenado que coloca cada coisa em seu lugar, preservando a exclusividade de Deus e estabelecendo relações límpidas e transparentes.

Devido a esta sua vocação originária, é somente no amor que homem e mulher encontram sua realização. Recusar o amor é negar a humanidade, causando frustração e autodestruição, uma vez que o ele faz parte da natureza humana. Neste sentido, pode dizer que o amor é a base para se viver a castidade.

A atitude mais autêntica diante do amor casto é o assombro, a respeitosa admiração deste dom que constitui o sentido mais profundo da vida. Essa respeitosa admiração pode desdobrar-se em uma forma amadurecida do amor, a partir da qual não se trata o outro como objeto a ser conquistado, mas se leva em conta a sua integralidade. Nesta perspectiva, sobressai o aspecto da doação, do cuidado pelo outro, ao invés do desejo de apossar-se dele. Assim, o amor se mostra como uma força ativa que impele à preocupação pela vida e pelo crescimento daquilo ou de quem é amado, estimulando o humano a agir em prol do objeto amado, não pelo que pode lhe ser proveitoso, mas por sua própria existência. Nas relações, onde falta essa preocupação ativa não se pode dizer que há amor.

A castidade, ou amor ordenado, equilibra as relações humanas, seja no que concerne à abertura a Deus, ao próximo e ao mundo (realidade criada). Ela envolve toda a realidade da pessoa, não podendo ser reduzida a um aspecto particular. A castidade franciscana ensina sobretudo a agir com liberdade perante as pessoas e as coisas, permitindo que elas também sejam livres em sua diferença, naquilo que lhes é próprio. Por meio dessas relações livres de todo egoísmo e posse o ser humano vai construindo e amadurecendo a sua realização, de tal modo que o amor se mostra como “única resposta sadia e satisfatória ao problema da existência humana”. 

Viver em castidade, portanto, é viver segundo um projeto que recorda a vontade de Deus para cada ser humano: ser filhos, no amor (Ef 1,4-5). Nos laços que vão sendo construídos, é preciso perguntar-se sobre o fundamento que os nutre, o que vale tanto para casados, como para solteiros, religiosos, presbíteros e missionários. 
Deus chama ao equilíbrio do amor e à pureza do coração. Cabe a cada um escolher a forma como quer concretizar este seu chamado originário, tendo sempre em vista não o egoísmo que aprisiona e empobrece os relacionamentos, mas a fidelidade ao projeto que verdadeiramente realiza o ser humano, o seguimento de Cristo, cuja existência foi uma prática de amor a Deus e ao próximo, sobretudo ao mais necessitado. Que o amor revelado plenamente em Jesus seja o alicerce para que, de fato, as relações humanas sejam edificadas de modo casto, sadio, livre e verdadeiramente realizador. Que este seja o projeto que ocupe o coração humano, impedindo que qualquer tipo de decadência possa nele adentrar.

Fr. Antônio Felipe de O. Zago
Vice-reitor do postulantado




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REFERÊNCIAS

ANDRÉS, José-Roman Flecha. Vida cristã, vida teologal. Para uma moral da virtude. São Paulo: Loyola, 2007
AZPITARTE, Eduardo López. Fundamentação da ética cristã. Trad.: Benôni Lemos. São Paulo: Paulus, 1995.

BALTHASAR, Hans Urs Von. Sólo el amor es digno de fe. Salamanca: Sígueme, 2006, 2ª edição.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Carta aos bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo. São Paulo: Paulinas, 2004, Col. Documentos da Igreja, n. 17.

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A FAMÍLIA. Sexualidade humana. Verdade e significado: Orientações educativas em família. São Paulo: Paulinas, 2009, 7ª Edição.

CORNIATTI, Fr. Antônio. Seguir Jesus Cristo, em castidade. 2006, p. 26.

FASSINI, Fr. Dorvalino. Vida e Regra Franciscana. Estranhando sua primeira versão vinda até nós. Porto Alegre: Província São Francisco de Assis, 2005.

FONTES FRANCISCANAS. Sto. André: O Mensageiro de Santo Antônio, 2005.

FRANCISCO, Papa. Laudato Si’. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

FROMM, Erich. A arte de amar. Trad.: Milton Amado. Belo Horizonte: Itatiaia, 1971.

GENOVESI, Vincent J.. Em busca do amor. Moralidade católica e sexualidade humana. Trad.: Barbara T. Lambert. São Paulo: Loyola, 2008.

MERINO, José Antonio; FRESNEDA, Francisco Martínez (Coord.). Trad.: Celso Márcio Teixeira. Manual de teologia franciscana. Petrópolis: Vozes, 2005.

MULHER. MANDELLI, Maria. In.: CAROLI, Ernesto. Dicionário Franciscano. Petrópolis: Vozes; CEFEPAL, 1999, p.

VANBOEMMEL, Fr. Fidêncio. Apontamentos no Retiro em preparação ao XII capítulo provincial ordinário. Os conselhos evangélicos à luz dos 800 anos da RNB. Província São Francisco de Assis do Brasil: 2021.

http://centrofranciscano.capuchinhossp.org.br/index.php?option=com_fontes&view=leitura&id=2182&parent_id=2144. Acesso em 23/07/2021.

https://sobrebudismo.com.br/o-que-os-budistas-querem-dizer-com-iluminacao. Acesso em 23/07/2021.





 
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