Artigos, Destaques, Província › 20/06/2017

DAQUELES QUE QUISEREM ABRAÇAR ESSA VIDA E DE COMO DEVEM SER ACEITOS

“AQUELES QUE QUISEREM SEGUIR ESTA VIDA E VÃO TER COM NOSSOS IRMÃOS” RB 2,1

Atualmente é nítida na Igreja a situação de uma crise vocacional, tanto nos seminários diocesanos, quanto nas casas religiosas. Poucos são os jovens que buscam a consolidação da vocação, ao passo que muitos “entram” nos seminários, mas em contrapartida muitos desanimam ainda na primeira semana.

Diante desse cenário, como provocar os jovens para a experiência da vida religiosa, especificamente da nossa franciscana conventual? Qual o método a ser utilizado, afim de que seja despertado nos vocacionados o ardente desejo do seguimento “mais de perto” de Jesus Cristo? Esse pequeno texto quer ser uma provocação nesse sentido, isto é, despertar para uma reflexão acerca da vocação de frade menor.

Nessa perspectiva, tal reflexão sustentar-se-á no texto da Regra Bulada, particularmente do capítulo segundo, o qual tem o título destacado acima. Tal texto chama-se Regra Bulada, pois se trata da regra de vida dos frades menores aprovada pelo papa Honório III em 1223 com a bula “Solet Annuere”. De fato, tal regra vinha sendo gestada desde 1209 com a aprovação oral pelo papa Inocêncio III, sendo ampliada onze anos mais tarde, em 1221, pelos frades no Capítulo de Pentecostes, sendo conhecida por Regra não Bulada. Até que dois anos mais tarde, 1223, a regra recebe a aprovação pontifícia com a bula papal, por isso regra bulada. Porém, sua configuração durou treze anos tendo três etapas fundamentais (1209-1221-1223). Trata-se da mesma regra com traços diferentes.

Destarte, no bojo da Regra Bulada Francisco no segundo capítulo orienta os frades quanto ao recebimento de candidatos ao estilo de vida, que naquele tempo eram muitos que vinham entusiasmados para receberem o hábito franciscano. Desse modo, o Seráfico Pai é muito sóbrio quanto a esse entusiasmo, e com cautela dispõe o modo como os jovens devem ser aceitos.

O texto começa com a orientação: “Aqueles que quiserem” (RB 2,1) o texto da Regra não Bulada é ainda mais taxativo: “aqueles que por inspiração divina vierem aos nossos irmãos” (RNB 3). Ora, tais trechos refletem o ponto de partida, ou melhor, o ponto nevrálgico da vocação franciscana. Por melhor que seja a propaganda vocacional, por mais que se fale bonito e que dê sinais de prodígios o frade menor, a vocação religiosa é iniciativa divina, isto é, Deus que chama, Ele convoca ao chamado.

Assim, cabe ao vocacionado estar na sintonia com Deus para auscultar Dele os sinais sobre qual vocação seguir. Francisco viveu em sua juventude questionamentos e numa reviravolta tem a coragem de se questionar: “Senhor o que queres que eu faças?” (LTC, 2,4)[1]. Do mesmo modo, o vocacionado que se mantém na sintonia com o Altíssimo, logo perceberá os sinais de Deus, que usa dos homens para se revelar (DV,3)[2]. E nessas provocações do Senhor, o jovem terá que escolher dentre as mais diversas formas de vida religiosa.

É justamente nessa lógica que se insere o papel dos frades na promoção vocacional, como aponta o texto da Regra Bulada no capítulo 3 intitulado: “DO OFÍCIO DIVINO, DO JEJUM E DE COMO OS IRMÃOS DEVEM IR PELO MUNDO”, no qual diz: “Aconselho, admoesto e exorto a todos os meus irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, que ao irem pelo mundo não discutam nem porfiem com palavras e nem façam juízo de outrem” (RB 3).

Em outras palavras, os frades são convocados a viverem com fidelidade o estilo de vida que professaram, isto é, viver o essencial da vida minorítica se trabalhando no próprio da vida franciscana, se aprofundar no seguimento de Jesus Cristo sendo Ele o único necessário da vida do frade. Não será essa a melhor propaganda vocacional? É claro que no trabalho pastoral do serviço de animação vocacional requer-se estratégias tais como: material formativo, retiros, convivências, baners, eventos….etc, contudo, tudo isso precisa convergir para o estilo de vida. Não basta a propaganda pela propaganda, deve ser ela a bica na qual corre a graça que inspira o chamado.

Portanto, o texto da Regra Bulada, sobretudo no capítulo segundo, nos convoca a nos abrimos à ação do Espírito Santo que rege a vida religiosa franciscana. Tal tarefa cabe primeiramente a nós frades que no esforço de vivermos autenticamente nossa vocação seremos luz para os outros que se questionam sobre a vida religiosa franciscana. Porém, cabe também aos vocacionados buscarem na intimidade com o Senhor a coragem de dar uma resposta ao chamado que Deus faz, e exercitar-se na arte de vencer a si mesmo, tal como Francisco e Clara fizeram, sempre na alegria de serem servos inúteis. Que nosso Seráfico Pai São Francisco e nossa mãezinha Santa Clara intercedam por nós junto a Deus.

Paz e bem.

 

[1] Legenda dos três companheiros. (Fontes franciscanas.  Mensageiro de Santo Antônio, 2005).

[2] Constituição Dogmática Católica: Dei Verbum. Concílio vaticano II

 

POR:   Frei Wagner Rafael Rodrigues OFMConv.

Frati minorum conventuallium et pecator.

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