Artigos, Destaques, Província › 11/12/2017

“Convertei-vos e crede no Evangelho!”: Homilia do Ministro provincial, em ocasião da Profissão dos Freis Arnado e Augusto

PROFISSÃO PERPÉTUA DE FREI ARNALDO E FREI AUGUSTO

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e área internaHoje, a liturgia da Palavra nos fala de conversão, de preparar no deserto um caminho para o Senhor e que as pessoas iam a João Batista para confessar seus pecados e receber um batismo de conversão. Conversão é palavra-chave no Evangelho. Segundo São Marcos, Jesus começou o seu ministério com estas palavras: “Convertei-vos e crede no Evangelho!”.

São Francisco também entendeu sua vocação um caminho de conversão. Pois ele diz em seu testamento:

O Senhor deu a mim, frei Francisco, começar a fazer penitência assim: pois, como estivesse em pecados, parecia-me demasiadamente amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu entre eles e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo, se me converteu em doçura da alma e do corpo. Depois disso, abandonei o mundo.”

Na Biblia, há diversas experiências de vocação. Dentre elas, é impressionante a vocação de Moisés, como sua vocação foi um caminho de conversão, uma passagem do modo natural de agir para acolher o modo de Deus agir.

Poderíamos distinguir três etapas:

  1. A autoconfiança.

Como sabemos, Moisés era um homem bem preparado. Ele foi recolhido no rio pela filha do Faraó que lhe deu a melhor formação. Assim bem instruído, Moisés se acha capaz de libertar o Povo de Israel valendo-se dos próprios recursos.

Certo dia, ao visitar seus ‘irmãos’ israelitas escravizados no Egito, viu um deles sendo espancado por um egípcio. Tomado de fúria, não hesitou em matar o agressor. Ele pensava que seu gesto o credenciaria como líder capaz de promover a libertação do seu povo, obtendo maciça adesão popular. Mas isso não ocorreu e ele teve de fugir para não ser preso e morto.

Caros Arnaldo e Augusto, podemos enxergar, nessa situação de Moisés, um pouco daquilo que pode acontecer conosco ao terminar o período de formação inicial. A gente poderia ser tentado a pensar: “Nossa! Estudei tantos anos! Estudei filosofia, teologia e outras coisas mais… Agora, estou habilitado a fazer muitas coisas. Vou arrasar na pastoral e outras atividades que desempenhar. Acho até que as pessoas vão ficar impressionadas comigo”.

A presunção e a vaidade pode encontrar espaço em nós também. O pecado não existe só para os outros. Não nos esqueçamos!

 

  1. A decepção

Quando fugiu do Egito, Moisés foi para o deserto de Madiã pastorear ovelhas, onde amargou longos anos de solidão, quando, um dia, o Senhor o chamou, da sarça ardente, para libertar o Povo de Israel. O “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” chamava-o pelo nome e enviava-o ao Egito para salvar o seu povo oprimido.

Estas palavras para Moisés soam perturbadoras. Em sua amargura, pensava que o refúgio no deserto seria definitivo e nunca mais alguém se lembraria dele. Eis que, ao contrário, nesse lugar, ouve agora ressoar o seu nome. Há alguém que o conhece e irrompe naquele exílio maldito declarando que o local é terra santa.

São Gregório de Nissa que meditou muito sobre a vida de Moisés afirma que Moisés poderia ter escolhido outras profissões que lhe teriam dado muito lucro, fazendo-o esquecer-se completamente do fracasso no Egito. Mas escolheu uma ocupação solitária e afastada porque ele não estava acomodado à sua fuga e teve coragem de questionar-se, dia após dia, sobre seu sofrimento, de perguntar-se como, afinal, tudo isso acontecera e quem havia permitido. Gradativamente vai-se purificando nessa mortificação, entra cada vez mais numa situação de vigilância e espera. Moisés purifica-se, sobretudo da confiança cega nos próprios métodos, nas próprias técnicas, em tudo aquilo que havia projetado[1].

O que aconteceu a Moisés pode acontecer também conosco. Quando confiamos demais nos nossos recursos e capacidades pessoais e começamos a agir como se tudo dependesse somente de nós, a decepção não tarda a chegar. Pois logo vamos nos chocar com a realidade das situações. Nós não somos santos e as pessoas com quem lidamos não são santas e há problemas que não podemos resolver nem com toda boa vontade ou as melhores qualidades que possamos ter.

Nesse momento, podemos ter a reação de Moisés e querer jogar tudo para o alto e fugir. Poderíamos ser tentados a dizer a nós mesmos: “Estou aqui na maior boa vontade, sacrificando-me por essa gente, mas ninguém me compreende e dá valor ao meu esforço. Por que ficar dando murro em ponta de faca? Vou cuidar da minha vida, empregando minhas energias e qualidades em coisas que dão mais resultado”.

Que perigo! Colocar-se num autêntico caminho de conversão não é nada fácil. Mas, como se percebe no caso de Moisés, esse momento de decepção e crise, se bem vivido, pode ser purificador e necessário para se descobrir a vocação autêntica.

 

  1. Experiência da vocação autêntica

Na história de Moisés, acontece, portanto, uma reviravolta completa. As coisas que pensava serem óbvias não o são: tudo é diferente do que ele acreditava. Finalmente, Moisés se dá conta de que é um homem inútil, que se enganou e errou seus cálculos. Nesse momento, é que ouve alguém dizer-lhe: ‘Tu deves ir’, ‘Eu te mando’. Moisés compreende uma coisa fundamental de todas as vocações divinas: o chamado é iniciativa de Deus.

Após atravessar dois longos períodos permanecendo cheio de si, digerindo sua decepção e amargura, Moisés descobre que a iniciativa da salvação vem de Deus. Quem realmente se preocupa com o povo e o ama de verdade, é o próprio Deus. A Moisés caberá apenas ser instrumento nas mãos de Deus, ser seu mediador para o serviço do povo.

Contudo, o aprendizado de Moisés não cessou com a descoberta autêntica da própria vocação. “Ser servo de Deus” pressupõe um contínuo discipulado. De fato, Moisés terá, pela frente, um longo caminho de mortificações e purificações, no exercício de seu ministério.

Parece que Moisés pensava que exerceria seu cargo, desfrutando posição de honra como ‘grande líder’. Mas ele é derrubado de seu pedestal quando o povo começa a reclamar com ele por falta de comida e de água.  Passando pela dura escola do realismo, Moisés descobre que responder ao chamado de Deus é colocar-se como servo nas situações mais elementares.

Muitas vezes, somos tentados como Moisés a nos encastelarmos numa compreensão burguesa de nossa vocação, como se fosse um privilégio para a gente estar acima dos outros e desfrutar de benefícios, permanecendo insensíveis às necessidades reais das pessoas.

Ser simples, servos de toda humana criatura, como nos recomenda São Francisco, é o modo de nos livrarmos de toda presunção e nos colocarmos evangelicamente a serviço das pessoas, como fez Jesus que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida (cf. Mc 10,45).

Frei Arnaldo e Frei Augusto que vocês possam fazer da experiência vocacional um autêntico caminho de conversão, uma passagem do espírito da carne ao Espírito do Senhor. Como disse São Francisco, que vocês não desejem outra coisa no mundo a não ser “ter o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar” (RB X,9).

 

Praia Grande, 09 de dezembro de 2017

[1] Vie de Moise, SC, n. 1 bis, du Cerf, Paris, 1955.

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